A participação importa: crescer em ocupação, em família!

Artigo de opinião por Catarina Cavaco, Terapeuta Ocupacional

Celebra-se hoje o Dia Mundial da Terapia Ocupacional, e o tema proposto pela Federação Mundial de Terapeutas Ocupacionais para 2026 é Participation Matters, “A participação importa”. É um tema que representa bem a essência da profissão.

A Terapia Ocupacional parte da premissa de que somos seres ocupacionais! É através do que fazemos (brincar, comer, vestir, explorar, aprender, estar e comunicar com os outros, em relação) que construímos quem somos e encontramos sentido no dia a dia. Fazemos aquilo que nos motiva, que se organiza em hábitos e rotinas, que as nossas capacidades permitem e que os ambientes à nossa volta tornam possível. Saúde, nesta perspetiva, é muito mais do que ausência de dificuldades: é poder participar, com significado, na vida que importa.

Na infância, participar é fazer parte da refeição em família, da rotina da manhã, da brincadeira no recreio, da sala de aula. E nenhuma criança participa sozinha: cresce dentro de uma família, de uma casa, de uma escola, de uma comunidade. Por isso, o terapeuta ocupacional pediátrico não trabalha apenas com a criança. Trabalha com a família e a partir dela.

Começa por escutar e observar. Os pais conhecem o seu filho como mais ninguém e, a par da observação e avaliação terapêutica, é com eles que se descobre o que corre bem, o que preocupa ou pode constituir um problema, o que cada família deseja para o seu dia a dia. O comportamento da criança é lido como uma forma de comunicação, não necessariamente como um problema a corrigir. E o desenvolvimento é olhado como o que é: um percurso feito de avanços, pausas e recuos, por vezes com percalços (perturbações do neuro-desenvolvimento). Ajudar uma família a interpretar estes desafios e procurar estratégias para os gerir, pode mudar a forma como se vivem esses momentos e o que faz com eles.

A partir daqui, a intervenção constrói-se a par com a família, apoiada nas suas forças. Pode acontecer no espaço terapêutico, com o foco em casa, na creche ou na escola, através do brincar, de pequenas adaptações às rotinas, aos espaços e aos materiais, e de estratégias concretas que os pais e os educadores possam levar para o seu dia a dia. O objetivo é que a criança consiga fazer o que é importante para ela e para quem a rodeia, que consiga participar.

Alguns exemplos de como isto se pode traduzir na prática são:

Numa criança com perturbação do espetro do autismo, o objetivo pode ser participar na refeição em família com menos desconforto, comunicar o que precisa ou lidar melhor com as mudanças de rotina, organizando o ambiente sensorial e tornando o dia mais previsível.

Numa criança com dificuldades de aprendizagem, poderá ser organizar-se para os trabalhos de casa, ajustados à sua competência, ganhar confiança na escrita ou desenvolver estratégias que lhe permitam mostrar o que sabe, fortalecendo a imagem que tem de si como alguém capaz de aprender.

Numa criança com perturbação de hiperatividade e défice de atenção, pode ser construir rotinas que tornem as manhãs menos desorganizadas, conflituosas, aprender a reconhecer e regular a sua energia, e manter-se envolvida numa tarefa ou num jogo até ao fim.

Numa criança com perturbação da coordenação motora, poderá ser vestir-se sozinha, usar os talheres com mais segurança, andar de bicicleta ou participar nos jogos com os amigos, sem que a dificuldade a afaste da brincadeira.

Em todos estes casos, o ponto de partida é a criança e a família, e o ponto de chegada é a participação ocupacional: ser parte ativa da vida de todos os dias.

Acreditamos que é este o caminho: uma abordagem que acompanha a criança, suportando o sistema em que ela cresce. Quando uma família se sente compreendida e competente, a criança participa mais, com mais segurança e mais alegria. A participação importa porque é nela que a vida acontece, ao ritmo de cada criança e de cada família.


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