Sobre abrandar e redescobrir uma forma mais natural de viver

Artigo de opinião por Sara Pratas Penedos, médica especialista em Psiquiatria

Alguma vez se apercebeu do estado de urgência com que vivemos os desafios do dia a dia? Da forma como pequenos contratempos parecem, por vezes, assumir proporções quase catastróficas?

Vivemos tão habituados a ter pressa, a antecipar problemas e a sentir que nunca temos tempo suficiente que este estado de tensão já nem sempre é reconhecido como tal. O stress tornou-se tão comum que passou a ser considerado normal.

Ao longo das últimas gerações, os desenvolvimentos industriais e tecnológicos proporcionaram-nos um acesso extraordinário a recursos e oportunidades. Paradoxalmente, parece que fomos interiorizando uma nova forma de escassez: a escassez de tempo.

Mas e se o primeiro passo para gerir o stress não passasse apenas por aprender a lidar melhor com as exigências da vida moderna, mas também por repensar a forma como nos relacionamos com essas exigências… e connosco próprios?

A Organização Mundial da Saúde descreve o stress como um estado de preocupação ou tensão mental provocado por uma situação difícil. Trata-se de uma resposta humana natural, essencial à nossa capacidade de enfrentar desafios e adaptar-nos às mudanças. Perante uma ameaça, o nosso cérebro e corpo mobilizam recursos que nos preparam para agir. O problema surge quando estes sistemas de resposta são repetidamente ativados sem oportunidades
suficientes de recuperação.

Sabemos também que o stress não depende apenas daquilo que nos acontece, mas da forma como interpretamos as situações e dos recursos que acreditamos ter para lidar com elas.

E aqui encontramos um aspecto fascinante da nossa mente: a capacidade de viajar no tempo.

Podemos estar confortavelmente sentados em casa e recordar uma experiência dolorosa, antecipar uma conversa difícil ou preocupar-nos com o futuro dos nossos filhos. Embora nada esteja a acontecer naquele momento, o nosso corpo pode responder a estes pensamentos com verdadeira ativação fisiológica. Esta capacidade de recordar e antecipar permite-nos aprender, planear e proteger-nos. Mas, quando ficamos presos em ciclos de preocupação e ruminação, podemos passar grande parte do dia a responder emocionalmente a acontecimentos que já passaram ou que poderão nunca acontecer.

Entretanto, habituámo-nos também a ignorar os sinais do próprio corpo: o cansaço, a tensão, a necessidade de descanso e o desconforto emocional.

Para muitas mulheres, esta desconexão assume ainda outra dimensão. Ao longo do ciclo menstrual, da gravidez, do pós-parto ou da transição para a menopausa, o corpo atravessa mudanças fisiológicas que podem influenciar o sono, a energia e o bem-estar. Ainda assim, muitas mulheres sentem que lhes é exigida a mesma disponibilidade e produtividade, independentemente das necessidades que possam estar a experienciar.

O que mudaria se aprendêssemos a escutar os nossos corpos, em vez de lhes exigirmos continuamente que se adaptem a expectativas que deixam tão pouco espaço para as suas necessidades?

Curiosamente, quando uma criança está assustada, compreendemos que precisa de conforto, segurança e paciência. No entanto, perante a nossa própria ansiedade, tristeza ou exaustão, frequentemente respondemos com impaciência: temos de aguentar, controlar as emoções, pensar menos ou fazer mais.

As emoções nem sempre refletem com precisão a realidade, nem nos dizem necessariamente como devemos agir. Mas também não são inimigos que precisemos de silenciar. Podemos aprender a escutar o corpo sem obedecer automaticamente a todos os impulsos, e a escutar a mente sem acreditar em todos os pensamentos.

É neste contexto que gostaria de recuperar uma ideia aparentemente simples, mas que considero fundamental: precisamos de aprender que nem sempre temos de ter pressa.

Quantas vezes nos apercebemos de que estamos a correr, mesmo quando não existe uma verdadeira urgência?

Terminamos uma tarefa e passamos imediatamente à seguinte. Comemos enquanto planeamos. Escutamos enquanto pensamos naquilo que temos de fazer depois. Chegamos fisicamente a um lugar, mas a nossa mente já está ocupada com o próximo destino.

E assim, pouco a pouco, vamos criando uma atmosfera interna de antecipação constante. A pressa deixa de ser apenas uma resposta às circunstâncias e torna-se uma forma habitual de estar.

Talvez o mais difícil seja reconhecer que, mesmo quando finalmente temos uma oportunidade para descansar, nem sempre sabemos como o fazer. O corpo pode estar parado, mas a mente continua a organizar, antecipar, preocupar-se e procurar a próxima coisa a resolver.

Abrandar, neste contexto, não significa necessariamente movermo-nos mais devagar, fazer menos ou abdicar das nossas responsabilidades. Significa começar a questionar a sensação de urgência que transportamos dentro de nós.

Significa criar espaço suficiente para nos apercebermos de quando estamos a acelerar desnecessariamente, a prender a respiração, a contrair os músculos ou a tratar situações comuns como se fossem emergências.

Por vezes, esta mudança pode começar com apenas alguns segundos.

Antes de responder a uma mensagem, podemos fazer uma respiração consciente. Entre terminar o trabalho e entrar em casa, podemos parar durante dez ou quinze segundos. Antes de responder ao nosso filho, companheiro ou colega, podemos reparar brevemente no estado em que nos encontramos.

Estas pequenas pausas não são um interruptor mágico que transforma instantaneamente o nosso sistema nervoso. No entanto, podem ajudar-nos a interromper padrões automáticos de tensão, redirecionar a atenção e criar oportunidades de maior regulação emocional.

E isto tem consequências que vão muito além da forma como nos sentimos individualmente.

Imagine que o seu filho chega da escola perturbado por um conflito com um colega. Se passou o dia inteiro sob pressão, poderá ter menos disponibilidade para o escutar, tornando-se mais reativo ou precipitando-se a procurar uma solução. Se, pelo contrário, conseguiu criar algum espaço interior, talvez lhe seja mais fácil acolher o sofrimento do seu filho sem acrescentar a
sua própria tensão à situação.

Não se trata de sermos pais perfeitos ou permanentemente tranquilos. Trata-se de reconhecer que a forma como cuidamos do nosso mundo interior influencia o espaço emocional que conseguimos oferecer às pessoas de quem gostamos.

Quando falamos de gestão do stress, focamo-nos frequentemente naquilo que “devíamos” acrescentar às nossas vidas: mais exercício, melhor alimentação, meditação, sono ou técnicas de relaxamento. Todas estas práticas podem ser importantes, mas até o esforço para nos tornarmos mais saudáveis pode-se transformar em mais uma lista de obrigações.

Podemos acabar por ficar stressados com a própria gestão do stress. Paradoxal, não?

Naturalmente, nem todo o stress se resolve através de pequenas pausas ou exercícios respiratórios. Por vezes, precisamos de apoio, de redistribuir responsabilidades, de estabelecer limites, de procurar acompanhamento profissional ou de modificar condições de vida que se tornaram insustentáveis.

Uma abordagem integrativa ao stress precisa de considerar a pessoa na sua globalidade: o corpo, a mente, as emoções, os hábitos quotidianos, as relações e o contexto em que vive.

Neste Dia Mundial do Stress, gostaria de deixar um convite à reflexão.

Talvez algumas das coisas que hoje consideramos normais mereçam ser questionadas: a expectativa de estarmos sempre disponíveis, a crença de que o descanso tem de ser merecido, a tendência para valorizarmos mais a produtividade do que a presença, ou a necessidade de preencher todos os momentos com mais informação, estimulação ou tarefas.

Reconectarmo-nos connosco próprios não exige rejeitar a vida moderna ou abandonar as nossas ambições. Significa encontrar formas de usufruir dos benefícios do mundo que criámos sem perder o contacto com as bases biológicas, emocionais e relacionais do nosso bem-estar.

Talvez gerir o stress não seja apenas aprender a lidar melhor com as vidas que construímos. Talvez seja também dar-nos permissão para construir vidas que o nosso corpo, a nossa mente e as nossas relações possam habitar de forma mais confortável.

E, por vezes, esse processo começa com algo tão simples como reparar que estamos com pressa – e recordar que, pelo menos neste momento, talvez não precisemos de estar.

Dr.ªSara Pratas Penedos
Médica Psiquiatra, OM 59389


Quer marcar a sua consulta?

Agora pode marcar as suas consultas online!